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Hora certa para voar
23/10/2019

 

O sonho de criança do Geraldo Frederico Düster sempre foi ser piloto de avião. Aos 16 anos, ele iniciou sua carreira na aviação com o curso técnico em manutenção de aeronaves Escola de Especialistas de Aeronáutica (EEAR), onde acabou ingressando na Força Aérea Brasileira (FAB).

Lá ele se tornou especialista nas manutenções preventivas e corretivas relacionadas aos sistemas de comandos de voo, hidráulico, pneumático, pressurização, combustível, aviônicos e turbinas. Foram 10 anos até que o comando de uma cabine se tornasse realidade em sua vida. De lá para cá, são 29 anos como piloto - 17 deles no transporte aeromédico - e 9.600 horas de voo acumuladas.

Nessas quase duas décadas transportando pacientes, o comandante Düster já se habituou à rotina. “Tudo começa quando a central informa a origem e o destino do voo para o qual estou escalado. Nesse momento, sou o responsável por traçar a melhor rota do voo, pesquisar as condições de infraestrutura dos aeroportos envolvidos, inclusive os de alternativa, aerovias, espaços aéreos condicionados, condições meteorológicas e identificar os possíveis desvios durante o trajeto”, conta. Na chegada ao hangar da Unimed Aeromédica, localizado no Aeroporto da Pampulha, o comandante se reúne com todos que estarão a bordo para um briefing sobre a missão.

Nessa fase, a tripulação apresenta o plano de voo, e a equipe médica informa a condição clínica do paciente que será transportado. “Conhecer o quadro médico é essencial para nosso trabalho. Se o paciente está entubado, por exemplo, eu posso manter a altitude de cabine da aeronave entre 6 e 10 mil pés e suas implicações, caso aconteça uma despressurização. Se temos uma pessoa com problemas de circulação, dou o comando para uma decolagem com aceleração suave, assim como pouso, com uma desaceleração também muito suave, o que evita o agravamento do quadro do paciente”, exemplifica.

Além de toda a complexidade do voo, as tripulações aeromédicas, quase sempre, estão sujeitas a um tempo de espera maior do que em outros segmentos e ainda enfrentam condições meteorológicas desfavoráveis. “Comandar um voo aeromédico vai além de manter uma aeronave no céu. Estamos ali, junto com a equipe médica, buscando uma condição de recuperação clínica e de sobrevida com qualidade para os pacientes e usuários do sistema cooperativo Unimed”, pontua.

EM PAUTA NOS ÓRGÃOS REGULADORES

O transporte aeromédico teve início no Brasil na década de 1990 e, apesar de todas as suas particularidades, a falta de regulamentação ainda enquadra a atividade como táxi-aéreo, categoria que abriga empresas que realizam o transporte de valores, cargas e passageiros comuns.

O comandante Wagner Teixeira, gestor operacional da Unimed Aeromédica, acredita que as variáreis que se aplicam ao voo aeromédico exigem estudos diferenciados para mitigação da fadiga da tripulação. “Uma logística eficiente e rigorosa no controle da jornada de trabalho e na observância dos descansos e folgas é essencial para que os riscos de um acidente sejam reduzidos”, afirma.

No Brasil, quem trata da regulamentação de horas de voo e jornada de trabalho é a Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC). A Lei 13475, aprovada pelo Congresso em 2017, estabelece que a jornada do táxi-aéreo é de 11 horas por dia, podendo se estender quando há a aplicabilidade do gerenciamento de fadiga. Contudo, o Regulamento Brasileiro de Aviação Civil 117 (RBAC), que determina os requisitos para o gerenciamento da fadiga, segue em fase de análise pela ANAC e, enquanto isso, programas relacionados ao tema estão sendo criados e adaptados às realidades de cada empresa.

Para o comandante Wagner, apesar de o estresse e a falta de sono serem os fatores que mais favorecem o aparecimento da fadiga, o gerenciamento deve discutir o tema sob a ótica das particularidades da atividade de transporte aeromédico. “A ANAC deveria pensar em publicar uma emenda que trate especificamente sobre o transporte aeromédico, dando tratamento adequado a esse segmento particular. A emenda poderia tratar, por exemplo, de questões relacionadas a treinamento, qualificação e jornada de trabalho, além de outros fatores pertinentes ao segmento”, afirma.

ABRIGO DE EXEMPLOS

Em um país continental como o Brasil, o cumprimento da jornada de trabalho permite que o piloto realize suas rotinas com eficiência e segurança. Na Unimed Aeromédica, a tripulação, composta por três comandantes e três copilotos, passa por um treinamento de reciclagem anual para tratar das especificidades da atividade.

Além disso, a instituição realiza um rigoroso controle da jornada de trabalho. “Se eu preciso transportar um paciente de Belém, no Pará, para Belo Horizonte, em Minas Gerais, a jornada de 11 horas vai acabar no meio do caminho porque são contados o tempo de voo, o transporte do paciente entre o hospital e o aeroporto e o abastecimento da aeronave em solo. A Unimed preconiza, então, que a tripulação se desloque para o destino um dia antes, faça repouso e retorne ao atendimento no dia seguinte”, detalha o comandante. Outra prática da Aeromédica é não permitir que a tripulação voe três madrugadas consecutivas.

FADIGA DA TRIPULAÇÃO E DIREITO AERONÁUTICO

A fadiga inibe a capacidade de reação dos pilotos diante de situações críticas, reduzindo os níveis de alerta e a habilidade de execução de certas tarefas relacionadas à segurança operacional.  “Não há dúvidas de que uma missão de transporte de passageiros ou carga difere, em muito, de um transporte aeromédico. Independentemente de sua jornada de trabalho, essas tripulações atuam em ambientes suscetíveis a situações de pressão emocional e conflitos”, explica o comandante Wagner. Ele é autor de um dos capítulos do livro “Direito Aeronáutico”, lançado, em setembro de 2018, pela Comissão de Direito Aeronáutico da Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Minas Gerais (OAB/MG), no qual ele defende os motivos pelos quais devem ser adotadas medidas diferenciadas para o transporte aeromédico. Segundo ele, existem lacunas no entendimento da matéria, e exige que os profissionais que atuam no setor ajam proativamente na discussão de um tema que atinge diretamente a rotina das operações e o dia a dia das tripulações.

Fonte: Revista Conexão – Edição 33